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EDITORIAL

2.ª Conferência do Fórum Permanente para as Competências Digitais
A revolução digital está aí. Como outras revoluções da história da Humanidade, como a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a revolução industrial, esta grande transformação está a mudar o nosso mundo. A forma como comunicamos, como aprendemos, como socializamos, como trabalhamos, como vivemos. Está a mudar os negócios, a forma de fazer política, a forma de governar, os centros de poder, as artes, as ciências, tudo o que conhecemos. Esta é, contudo, uma revolução mais rápida, mais caótica e que promove transferências de valor mais significativas, em intervalos de tempo mais curtos do que todas as outras que a antecederam. Esta é, comparativamente às anteriores, a revolução instantânea! As suas profundas transformações, baseiam-se numa exponencial, que se mantém aplicável nos últimos sessenta anos: o crescimento da capacidade de cálculo e de armazenamento que se consegue colocar num equipamento digital de uma dada dimensão.
O computador eletrónico, criado junto ao final da segunda guerra mundial, assume hoje formas cada vez mais rápidas, com cada vez maiores capacidades de armazenamento, em dimensões físicas cada vez menores e com consumos de energia cada vez mais reduzidos. Este é o motor desta transformação, em todas as áreas da nossa vida, em todos os sectores da atividade económica, em todas as dimensões da cidadania e da governação.
As consequências desta revolução no emprego serão enormes, como o foram com as revoluções anteriores, só que muito mais rápidas. Com a revolução agrícola e industrial a maioria dos empregos deslocaram-se da agricultura para a indústria e da indústria para os serviços, do interior para as grandes cidades. Com a revolução digital, esse movimento transformador acentua-se com a percentagem dos empregos nas economias mais desenvolvidas, a aproximar-se de um padrão que corresponde a 80% nos serviços, 18% na indústria e 2% na agricultura, com produtividades cada vez maiores. Contudo, a revolução digital, não veio incrementar a automação apenas na agricultura e na indústria, mas também nos serviços. Muitos empregos, nomeadamente os de natureza puramente transacional, estão a ser destruídos, enquanto outros novos vão sendo criados.
Apesar desta enorme transformação estrutural, as revoluções anteriores sempre se traduziram num aumento líquido do total do emprego, mas sempre gerando empregos muito diferentes. Apesar de algumas diferenças importantes da revolução digital, face às revoluções anteriores, a cumprir-se o mesmo padrão histórico, o número total de empregos poderá continuar a crescer, mas serão empregos seguramente muito diferentes, criados num intervalo de tempo muito mais curto que nas revoluções anteriores.
Isto exigirá muito dos cidadãos, das empresas, dos governos. Porque o risco de exclusão e o risco de detenção de qualificações inadequadas na era digital, será um risco muito maior do que alguma vez foi, e que está a aumentar, todos os dias, de forma muito rápida. Quando as transformações aceleram, as diferenças entre quem acompanha o seu ritmo e os que ficam para trás serão cada vez maiores. Hoje temos já uma humanidade a duas velocidades. Os que usam dispositivos digitais, a internet, o comércio eletrónico e os que não o fazem. Os excluídos da revolução digital sê-lo-ão muito mais do que o foram os excluídos de outras revoluções.
Por isso é tão urgente, incluir, educar, qualificar, especializar e investigar na era e com os instrumentos digitais. Isto num contexto demográfico também em grande transformação, com um forte crescimento da população mundial total, com um decréscimo da natalidade em muitos dos países desenvolvidos com o aumento da esperança de vida e da concentração crescente dos humanos em cidades e com a migração continuada do emprego entre sectores da atividade económica.
É essa a missão do INCoDe2030, enquanto iniciativa portuguesa para as qualificações digitais. O programa que, com grande transversalidade, abarca os desafios acima referidos, está em curso e mobiliza largos sectores da sociedade, da economia e das administrações públicas. No seu contexto, o Fórum Permanente para as Competências Digitais, visa divulgar os seus resultados e promover o seu acompanhamento, comparação e discussão pública. O Fórum acaba de realizar a sua segunda conferência anual onde foram divulgados e colocados em debate resultados de vários dos seus projetos que se encontram em curso, onde muitas das suas iniciativas estiverem disponíveis para contacto com o público na sua área de exposição e onde foi apresentado o novo Comité de Alto Nível de Peritos Internacionais que irá passar a acompanhar a iniciativa INCoDe2030 e assim contribuir para a revisão dos seus resultados, comparação com outras iniciativas internacionais e elaboração de sugestões para a sua evolução futura.
As competências digitais, serão cada vez mais necessárias, não apenas para conseguir um melhor emprego, mas tão somente para conseguir um emprego e um lugar na sociedade. Os níveis de produtividade pessoal e organizacional conseguidos com os instrumentos da revolução digital não têm, nem terão, qualquer comparação com os que se podem conseguir sem esses mesmos instrumentos. Mais ainda, estes artefactos e todos os que lhes seguirão aparecerão cada vez mais depressa exigindo um esforço de adaptação e de requalificação a uma velocidade nunca antes vista na história do Homem. Há que continuar aprendendo, continuar adquirindo novas qualificações, sempre ao longo da vida.
Caminhar para uma sociedade, um modelo de cidadania, um modelo de desenvolvimento pessoal, uma economia e uma administração pública, que contemplem e incorporem as capacidades necessárias para garantir uma adaptação a esta mutação constante terá de ser o nosso objetivo. Dele dependerá a nossa coesão social, a nossa competitividade e, portanto, o nosso sucesso no quadro de um mundo transformado pela revolução digital.
Rogério Carapuça
Presidente da APDC e Presidente do Fórum Permanente para as Competências Digitais