Educação na era da Inteligência Artificial: porque motivo a automação não deve ser a única solução

Mutlu Cukurova

A Educação é uma área na qual as tecnologias de Inteligência Artificial (IA) e o seu impacto ainda não são totalmente compreendidos. Talvez um papel mais apropriado para a IA na Educação seja o de proporcionar oportunidades para o aumento da inteligência humana, com a IA a apoiar os processos de decisão, em vez de os substituir através da automação.

De forma a alcançar esta realidade na Educação, é necessário que exploremos a capacidade dos sistemas de IA de lidarem com os complexos contextos sociais da meio educativo, primando pela igualdade. Contudo, sermos capazes de atingir um nível de maturação da IA que permita a integração de procedimentos totalmente automatizados nas atividades diárias dos sistemas de Educação é uma questão que precisa de um estudo mais aprofundado.

É essencial sublinhar que grande parte da investigação em IA na Educação se tem focado nas tentativas de criar sistemas que sejam tão percetivos quanto os professores humanos. Enquanto esta automação for em benefício da humanidade, então a IA pode ser considerada ética do ponto de vista Kantiano. Porém, na Educação, isto é verdade apenas se as necessidades adereçadas corresponderem às que são valorizadas pelos intervenientes na área: professores, alunos, e encarregados de educação.

O problema com a automação começa quando os instrumentos de IA são orientados por valores não partilhados pelos atores-chave. É por este motivo que, a meu ver, devemos evitar sistemas totalmente automatizados no campo da Educação.

É igualmente importante enfatizar que há áreas específicas em que certas máquinas podem ser consideradas como tendo inteligência perfeita para o desempenho das tarefas nos contextos em que são utilizadas, tomando as decisões corretas. Mas no meio educativo nem sempre é possível encontrar uma resposta correta. O que os especialistas fazem é identificar a melhor ação possível, baseada na informação e nos recursos disponíveis – a qualidade de “melhor” decisão não o é do ponto de vista humano nem artificial. Trata-se da opção logicamente possível, e alcançá-la requer uma combinação de inteligência humana e IA.

Assim, a opção preferível é, a meu ver, manter o processo de tomada de decisão nas mãos dos educadores humanos, incrementando as suas capacidades com IA: sobretudo, mecanismos automatizados para recolha de dados e opções de processamento. Estes sistemas híbridos humanos-IA, não autónomos, poderão ser valiosos para os nossos sistemas educativos, nos quais o objetivo é melhorar os resultados obtidos pelos alunos (e não melhorar o estado-da-arte do campo da IA).

Em Educação, os sistemas de IA devem ser considerados um continuum no que diz respeito à extensão em que são dissociados de professores e alunos, em vez de apenas uma abordagem para fornecer automação dos seus comportamentos. Penso que identificar áreas nas quais as máquinas são mais adequadas para complementar o conhecimento humano é a base do papel “subserviente” da IA. Neste sentido, a próxima questão com que nos devemos ocupar é: exatamente o que é que desejamos aumentar no conhecimento humano no contexto educativo, e como é que as tecnologias de Inteligência Artificial nos podem ajudar a alcançá-lo?

 

Mutlu Cukurova

Institute of Education

University College London

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